Review: Ubuntu Linux 7.10 “Gutsy Gibbon”

by Rafael Rigues on 18/10/2007

Ubuntu 7.10 “Gutsy Gibbon” e Gimp 2.4.0-rc3

O mês de outubro chegou e com ele a tradicional versão semestral do Ubuntu, uma das distribuições Linux mais populares da atualidade segundo dados do site DistroWatch.

O Ubuntu Linux 7.10 “Gutsy Gibbon” (Gibão Valente) mantém a tradição de uma distro pequena (apenas 700 MB em um CD), estável e fácil de usar estabelecida por seus antecessores e traz melhorias em várias áreas. Pode não ter as “mais de 300” novidades de um Mac OS X Leopard, que chega no dia 26, mas as mudanças existentes são para melhor e fazem toda a diferença no dia-a-dia do usuário: configuração automática de impressoras, suporte melhorado a hardware (até WinModem funciona), efeitos 3D na interface, busca no desktop, multimí­dia fácil e que funciona e muito mais.

Interessado? Visite o site oficial e coloque já sua cópia na fila de download (recomendamos o uso do BitTorrent). E enquanto ela não vem, pegue uma xicará de café e nos acompanhe neste review.

A máquina de testes
Nossa máquina de testes é um notebook Positivo M25 com processador Intel Celeron M de 1,45 GHz, 512 MB de RAM, disco rí­gido de 40 GB e uma unidade ótica combo (lê DVDs, grava CDs). O monitor LCD tem 13 polegadas e resolução de 1280×800 pixels (widescreen). O chipset de ví­deo é o Intel 915GM. A interface Ethernet é uma Realtek RTL8139, e a wireless é uma RaLink RT2500 (802.11b/g). O modem é um WinModem Motorola SM56. Também há um leitor de cartões integrado (com suporte a SD, MMC e Memory Stick) ligado internamente ao barramento USB.

Os únicos periféricos usados freqí¼entemente com a máquina são um adaptador Bluetooth USB (X-Micro Bluetooth USB Dongle 2.0 Plus) e um mouse Bluetooth HP PC Card Mouse (na verdade uma versão OEM do MoGo Mouse BT).

Instalação
Assim como nas versões anteriores, e em contraste com a maioria das distribuições Linux modernas, o Ubuntu 7.10 é distribuí­do em um único CD, que contém tanto um ambiente desktop completo, que pode rodar direto do CD sem necessidade de instalação no disco rí­gido (Live CD), como um instalador gráfico fácil de usar, baseado em assistentes.

Em comparação í  versão anterior, na mesma máquina, é fácil notar que o Live CD está mais “pesado”: ele foi 65% mais lento para iniciar (tempo medido entre o menu de boot e o surgimento do desktop completo na tela) e 320% mais lento para abrir o OpenOffice.org rodando diretamente do CD.

O instalador é o mesmo usado na versão anterior, sem mudanças visí­veis na interface. Instalamos o sistema com particionamento automático ocupando todo o disco rí­gido, que foi dividido em uma partição de swap com cerca de 1,5 GB (3x a quantidade de RAM fí­sica instalada) e o restante em uma partição contendo todo o sistema e os diretórios de usuário.

Suporte a hardware e desempenho
O hardware de nossa máquina de testes tem um histórico de bom suporte sob o Linux, mas a última versão do Ubuntu introduziu alguns problemas de compatibilidade, como com a interface de rede wireless, que detectava mas não se conectava a nenhuma rede, e um mouse Bluetooth que causava congelamento do sistema se estivesse “plugado” no slot PCMCIA durante o boot. O modem nunca foi suportado diretamente por nenhuma distribuição, embora fosse possí­vel fazer uma complicada configuração manual.

Entretanto, a nova versão do Ubuntu muda este cenário para melhor. Logo no boot pelo Live CD a interface wireless foi ativada e a rede interna foi detectada e configurada. Após a instalação o Gerenciador de Drivers Restritos surgiu na tela, avisando que há um driver não-livre para o modem e perguntando se querí­amos usá-lo. A presença do mouse não congela mais o sistema durante o boot, e o adaptador Bluetooth foi automaticamente configurado assim que plugado a uma porta USB. O leitor de cartões funciona bem como sempre, e o painel de controle do touchpad (produzido pela Synaptics) permite habilitar scroll horizontal e vertical tocando nas bordas do dispositivo.

O único porém foi na configuração de ví­deo: tive de instalar o pacote 915resolution e alterar manualmente alguns arquivos de configuração para habilitar a resolução correta do monitor, num procedimento idêntico ao demonstrado em nosso teste com o Positivo W98. A aceleração 3D foi ativada automaticamente, bem como o Compiz e seus efeitos especiais na interface.

No geral o Ubuntu 7.10 rodou tão bem quanto a antiga versão 7.04 na mesma máquina. Na verdade rodou melhor, considerando que a mais recente tem o Compiz sempre habilitado, e a antiga ainda usava o desktop 2D. Falando no Compiz, ele está notavelmente mais rápido em relação a versões anteriores, e a máquina consegue rodar ví­deo em tela cheia sem engasgos nem falta de sincronia. Vale lembrar que, segundo o í­ndice de desempenho do Windows Vista, a placa de ví­deo Intel 915GM integrada na máquina não tem poder de processamento suficiente para rodar o que são, basicamente, os mesmos efeitos.

Multimí­dia
O Ubuntu 7.04 introduziu um sistema de instalação automática de codecs multimí­dia, e na versão 7.10 ele funciona muito bem. Ao tentar reproduzir um formato de arquivo não suportado, o media player (Totem) informa ao usuário de que é necessário instalar codecs extras e apresenta uma lista com as opções (classificadas por popularidade). Não tem erro, basta selecionar a mais popular e clicar no botão Install. O método funcionou sem problemas para arquivos MP3 e ví­deos em DiVX e XviD, mas ainda pode ser simplificado: ao tentar reproduzir um ví­deo em Quicktime tive de instalar dois codecs separadamente. Na primeira tentativa, o Totem encontrou o codec de ví­deo, e na segunda, o de áudio.

{ubuntu710}Totem: o media player do Ubuntu 7.10

Infelizmente o método de instalação automática não funciona com DVDs. O Totem até exibe uma mensagem de que faltam os codecs adequados, mas não sugere nenhum pacote a instalar. Para reproduzir DVDs é necessário instalar os pacotes libdvdnav (parte da distribuição do Ubuntu) e libdvdcss (fornecido por projetos paralelos, como o Medibuntu). Mas ainda assim as coisas não funcionam perfeitamente. Quando um DVD é inserido no drive, o Totem começa a reproduzir o disco automaticamente, mas sem os menus. Mas se você fechar o player, abrí­-lo novamente e clicar em Movie/Play Disc, vai receber uma mensagem de falta de codecs, mesmo que eles já estejam instalados.

Videolan: a melhor opção para DVDs no UbuntuA melhor saí­da para reproduzir DVDs é instalar o Videolan (também conhecido como VLC), parte do repositório Universe. Em relação ao Totem ele tem a vantagem de também reproduzir os menus dos discos, e pular automaticamente aquelas telas iniciais incômodas com avisos sobre direitos autorais ou trailers obrigatórios. Mas mesmo depois de instalar o Videolan, o Totem vai continuar sendo o player padrão quando um DVD for inserido no drive. Para mudar isso, clique em Sistema | Preferências | Unidades de Disco e Mí­dia Removí­vel e na aba Multimí­dia, sob DVD de Ví­deo, altere o conteúdo do campo Comando: para:

vlc dvd:///dev/dvd --vout-filter deinterlace –deinterlace-mode=blend

Vale notar que tanto o Totem quanto o Videolan agora conseguem tocar ví­deo em tela cheia sem problemas quando o Compiz está ativado. Na versão anterior do Ubuntu, o ví­deo era reproduzido normalmente em uma janela, mas tudo o que o usuário via em tela cheia era uma tela preta.

As novidades
O melhor suporte a hardware, e os efeitos especiais na interface gráfica, são as principais mudanças que o usuário vai notar logo de cara ao começar a usar o sistema. Mas não são tudo. Há inúmeras outras melhorias que, embora menos visí­veis, fazem bastante diferença no dia-a-dia.

Uma delas é o suporte nativo a leitura e escrita em partições NTFS, algo que faz falta há muito tempo. Nas versões anteriores do Ubuntu era necessário instalar o Captive, um sistema que usava o driver NTFS nativo do Windows, para escrever em partições e discos NTFS. Mais recentemente, uma alternativa era instalar e configurar o NTFS/3G, o que podia ser feito com ferramentas como o Automatix. Agora isso não é mais necessário, pois os recursos do NTFS/3G já vêm incorporados ao Ubuntu 7.10, e todas as partições NTFS são montadas por “default” com permissão de escrita (embora você possa desativar isto, se quiser, editando o bom e velho /etc/fstab).

O sistema de impressão também foi aprimorado, e agora o Ubuntu pode instalar e configurar automaticamente uma impressora assim que ela é plugada a uma porta USB. Testei este recurso, que funcionou perfeitamente com uma HP Deskjet 840C. Em uma recente entrevista coletiva, Mark Shuttleworth, CEO da Canonical e fundador do projeto Ubuntu, comentou que o ní­vel de compatibilidade e os recursos do sistema de impressão do Gutsy Gibbon estão a par com o do Mac OS X, o que faz sentido, já que ambos são baseados no CUPS. “Se uma impressora funciona no Mac, funciona no Ubuntu”, disse Mark.

Tracker: o sistema de busca no desktop no Ubuntu 7.10O OpenOffice Writer abre (mas não salva) documentos do Word 2007. O Calc ainda não tem esse recurso. E falando em documentos, o Gnome (na versão 2.20), ambiente desktop do Ubuntu, finalmente ganhou um sistema de busca no desktop integrado. Ao contrário do que muita gente esperava, ele não é o Beagle, mas sim o Tracker, um equivalente com os mesmos recursos com algumas vantagens, como um consumo menor de recursos do sistema. Ao fazer uma busca (usando o í­cone no painel ou chamando a caixa de busca com Alt+F3) os resultados incluem seu histórico de uso da máquina, busca na Web, ações, bookmarks e documentos e imagens.

Um painel de controle permite ajustar as preferências de indexação, como o consumo de memória, limites no tamanho dos arquivos que serão indexados, arquivos e diretórios que deverão ser monitorados ou ignorados e preferências para indexação de e-mail. Curiosamente, o painel tem opção para indexar as mensagens do Evolution, mas as opções correspondentes para o Thunderbird e o Kmail estão desabilitadas.

O painel de controle Aparência une diversos painéis antigos em um sóEntre outras mudanças no Gnome estão a simplificação de alguns painéis de preferências. Por exemplo, o novo painel Aparência engloba os antigos Fontes, Background, Toolbars e Desktop Effects. Outra novidade é o User Switcher (Troca de Usuário), recurso já conhecido de quem usa o Mac OS X ou o Windows XP/Vista. Você pode deixar uma sessão desktop rodando “em segundo plano” e abrir uma nova sessão, como um usuário diferente, e alternar entre elas í  vontade. Bom para quem compartilha o mesmo micro com parentes, que í s vezes precisam dar “uma olhadinha” em algo bem na hora em que você está rodando algo que não pode ser interrompido.

O Firefox tem um sistema de instalação de plug-ins ligeiramente modificado. Ele continua sugerindo, automaticamente, o plug-in correto para ver o conteúdo de uma página, mas agora os plug-ins são baixados e instalados via Synaptic. Um plug-in interessante é o Gnash, uma alternativa livre ao Adobe Flash. Ainda em desenvolvimento (a versão atual é a 0.8.1) ele já permite ver alguns sites e animações, mas não está preparado para substituir o plug-in da Adobe. Tive problemas com animações interativas, como no arquivo de tirinhas passadas em Garfield.com, um site praticamente todo em Flash. O Gnash tem suporte a Flash Video, mas os ví­deos do Youtube (exemplo mais popular da tecnologia) tocam numa velocidade muito abaixo do normal, e com os controles de reprodução corrompidos.

Flash (í  esquerda) vs. Gnash (í  direita). Note os controles incorretos no Gnash

A nova versão do Ubuntu também tem destaques na área de servidores, que está fora do escopo deste review. Entre elas AppArmor (maior proteção contra Buffer Overflow durante a execução de código) e perfis pré-definidos de instalação, como servidor de e-mail, banco de dados, impressão e arquivos. E surge no mercado mais uma variante do Ubuntu: depois do Kubuntu, Xubuntu, Edubuntu e Ubuntu Studio, é a vez do Gobuntu, baseado apenas em software livre (sem exceções). A idéia é oferecer aos usuários uma distribuição amigável e de alta qualidade que não conflite com a filosofia do software livre, como definida pela Free Software Foundation.

Considerações finais
O Ubuntu 7.10 não só é a melhor versão do Ubuntu que já testei, como uma das melhores distribuições Linux entre as muitas que já passaram pelas minhas mãos em vários anos lidando com o pinguim. O suporte a hardware é excelente (até mesmo Winmodems funcionam) e o recurso de instalação automática de codecs e a integração dos plugins do Firefox ao Synaptic praticamente dispensam o uso de software para “aparar as arestas”, como o popular (e recentemente controverso) Automatix.

Gostaria de ver um suporte a DVDs que simplesmente funcione sem necessidade de ajustes e instalação manual, mas entendo que questões ligadas a royalties e licenciamento complicam uma possí­vel solução. Se você quer experimentar o Linux, ou está pensando em mudar para uma distribuição que “simplesmente funciona”, vá de Ubuntu. Não tem como errar.

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